sábado, maio 03, 2008

Ao cuidado da CPLP

1. Passados mais de trinta anos sobre a descolonização começa a ser possível fazer história sobre o colonialismo português, mas também sobre a governação dos países desde então independentes. A excelente reportagem de Anabela Saint-Maurice sobre as roças do Cacau e os contratados em São Tomé e Príncipe, que ontem o canal 2 da RTP repetiu, é disso mesmo um bom exemplo.

2. As explorações agrícolas já não existem. Casas, instalações, outros meios de produção e até um hospital e o seu equipamento, lá estão, pilhados, abandonados, entregues aos efeitos do tempo e das leis da natureza. O povo que antes ali habitava lá permanece, mas tal como as construções e equipamentos coloniais, à mercê das mesmas leis da natureza. Vive apenas do que essa natureza, as árvores e o mar, espontaneamente propicia. Um ex-contratado, ou descendente dos que foram de Angola e Cabo-Verde, dizia: "no tempo colonial havia tudo, tínhamos tudo, menos liberdade. Agora só temos liberdade, o resto falta tudo".

3. Como classificar os governantes de um país que nunca conheceu guerras, nem conflitos armados, sejam eles políticos, regionais, étnicos, ou outros; independente há 33 anos, e que, ainda assim, mantêm um país e o seu povo naquele estádio de desenvolvimento?

1 comentário:

MF disse...

Tenho algumas reflexões sobre o colonialismo - que vivi - e sobre a descolonização em que participei activamente.
O caso de STeP é paradimático da impossibilidade de se descolonizar de facto! O colonialismo assenta em tais condições que, uma vez aniquilado, continua a formatar os gavernos e as soluções. É como uma nódoa que não sai, por muito que se esfregue! A sua pergunta pode ser formulada em relação Brasil, à Colômbia, a quase toas as antigas colónias...
O neo-colonialismo também não é solução. Olhe-se a África quase toda!
Talvez a esta maldição esteja a escapar Cabo Verde. Talvez!
Primeiro porque não tem riquezas naturais de caráter instantâneo e porque teve a felicidade de ser uma ilha com um relativo nível educacional de uma pequena mas todavia elite nacional e, quanto a mim a mais importante razão , é que teve logo a seguir à independência uma fortíssima corrente migratória para o exterior que resolveu o imediato problema do desemprego e lhe trouxe algumas divisas.A isto acresce que o carácter do colonialismo em CV nunca teve contornos de trabalho escravo ou de produções obrigatórias - o clima não deixou !
Quanto às outras colónias portuguesas, a natureza do nosso paternalismo conjugado com a violência da exploração colonial, trabalho forçado, aculturação, repressão e por fim a guerra colonial deixa marcas de tal forma profundas a que o neo-colonialismo apenas continua na exploração dos recursos naturais agora com menos esforço e sem necessidade de ocupar fisicamente o terreno.
MFerrer
http://homem-ao-mar.blogspot.com